Xingatório da Imprensa

abril 27, 2009

Filed under: Uncategorized — elpydiophragoso @ 4:40 am

Erramos (e muito!)
Nem o mais articulado dos escribas poderia ser mais claro do que os fatos. Por isso, o próprio texto da Folha de sábado (25), a respeito de um documento imaginário, conta a história. Permito-me apenas uma singela – e ululantemente óbvia – observação: verificação se faz antes de se publicar a matéria.

Autenticidade de ficha de Dilma não é provada

Folha tratou como autêntico documento, recebido por e-mail, com lista de ações armadas atribuídas à ministra da Casa Civil

Reportagem reconstituiu participação de Dilma em atos do grupo terrorista VAR-Palmares, que lutou contra a ditadura militar

DA SUCURSAL DO RIO

A Folha cometeu dois erros na edição do dia 5 de abril, ao publicar a reprodução de uma ficha criminal relatando a participação da hoje ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) no planejamento ou na execução de ações armadas contra a ditadura militar (1964-85).

O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o “arquivo [do] Dops”. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada -bem como não pode ser descartada.

A ficha datilografada em papel em tom amarelo foi publicada na íntegra na página A10 e em parte na Primeira Página, acompanhada de texto intitulado “Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto”.

Internamente, foi editada junto com entrevista da ministra sobre sua militância na juventude. Sob a imagem, uma legenda ressaltou a incorreção dos crimes relacionados: “Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu”.

O foco da reportagem não era a ficha, mas o plano de sequestro em 1969 do então ministro Delfim Netto (Fazenda) pela organização guerrilheira à qual a ministra pertencia, a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Ela afirma que desconhecia o plano.

Em carta enviada ao ombudsman da Folha anteontem, Dilma escreve: “Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30 de março (…) a matéria publicada tinha como título de capa “Grupo de Dilma planejou sequestro do Delfim”. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de “factóide”, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha.”

A reportagem da Folha se baseou em entrevista gravada de Antonio Roberto Espinosa, ex-dirigente da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e da VAR-Palmares, que assumiu ter coordenado o plano do sequestro do ex-ministro e dito que a direção da organização tinha conhecimento dele.

Três dias depois da publicação da reportagem, Dilma telefonou à Folha pedindo detalhes da ficha. Dizia desconfiar de que os arquivos oficiais da ditadura poderiam estar sendo manipulados ou falsificados.

O jornal imediatamente destacou repórteres para esclarecer o caso. A reportagem voltou ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, que guarda os documentos do Dops. O acervo, porém, foi fechado para consulta porque a Casa Civil havia encomendado uma varredura nas pastas. A Folha só teve acesso de novo aos papéis cinco dias depois.
No dia 17, a ministra afirmou à rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, que a ficha é uma “manipulação recente”.

Na carta que enviou ao ombudsman, Dilma escreveu: “Solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 5.abr.2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S. Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos.”

A ministra escreveu ainda: “O mais grave é que o jornal Folha de S.Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site http://www.ternuma.com.br (“terrorismo nunca mais”), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.”

Fontes

Dilma integrou organizações de oposição aos governos militares, entre as quais a VAR-Palmares, um dos principais grupos da luta armada. A ministra não participou, no entanto, das ações descritas na ficha. “Nunca fiz uma ação armada”, disse na entrevista à Folha de 5 de abril. Devido à militância, foi presa e torturada.

Na apuração da reportagem do dia 5, o jornal obteve centenas de documentos com fontes diversas: Superior Tribunal Militar, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Arquivo Público Mineiro, ex-militantes da luta armada e ex-funcionários de órgãos de segurança que combateram a guerrilha.

Ao classificar a origem de cada documento, o jornal cometeu um erro técnico: incluiu a reprodução digital da ficha em papel amarelo em uma pasta de nome “Arquivo de SP”, quando era originária de e-mail enviado à repórter por uma fonte.

No arquivo paulista está o acervo do antigo Dops, sigla que teve vários significados, dos quais o mais marcante foi Departamento de Ordem Política e Social. Na ditadura, era a polícia política estadual.

Entre as imagens reproduzidas pelo arquivo, a pedido da Folha, não estava a ficha. “Essa ficha não existe no acervo”, diz o coordenador do arquivo, Carlos de Almeida Prado Bacellar. “Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece.”

Pelo menos desde novembro a ficha está na internet, destacadamente em sites que se opõem à provável candidatura presidencial de Dilma.

O Grupo Inconfidência, de Minas Gerais, mantém no ar uma reprodução da ficha. A entidade reúne militares e civis que defendem o regime instaurado em 1964. Seu criador, o tenente-coronel reformado do Exército Carlos Claudio Miguez, afirma que a ficha “está circulando na internet há mais de ano”. Sobre a autenticidade, comentou: “Não posso garantir. Não fomos nós que a botamos na internet”.

Pesquisadores acadêmicos, opositores da ditadura e ex-agentes de segurança, se dividem. Há quem identifique indícios de fraude e quem aponte sinais de autenticidade da ficha. Apenas parte dos acervos dos velhos Dops está nos arquivos públicos. Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados.

abril 11, 2009

Filed under: Uncategorized — elpydiophragoso @ 7:05 pm

Estilística do incompreensível
É um prazer abrir o jornal e ler um texto que foge ao ramerrame da clareza e objetividade levadas ao extremo. Às vezes, porém, confunde-se estilo com outra coisa bem mais complicada, como demonstra a coluna Conexão Diplomática, no Correio Braziliense deste sábado, sob o título “Tá faltando ‘ele'”:

À mesa da 5ª Cúpula das Américas, no próximo fim de semana, Raúl Castro vai estar tão presente quanto Jacob do Bandolim no samba dedicado a ele pelo filho, Sérgio Bittencourt, na voz de Nelson Gonçalves.

O que a coluna quis dizer, aparentemente, é que Raúl Castro não estará na Cúpula. Assim como Jacob do Bandolim não estava mais “naquela mesa”, tema de música composta por Sérgio Bittencourt, seu filho, e consagrada por Nelson Gonçalves.

A regra é clara, Galvão: referência que ninguém entende não é referência.

O texto continua, mas não melhora muito. Para os mais curiosos, vai reproduzido abaixo:

Nessa década e meia desde a primeira reunião, o único país excluído do sistema interamericano estará mais acompanhado que nunca. E o Brasil, na figura do presidente Lula, foi escalado para pivô de uma delicada operação, que transcende a questão cubana pura e simplesmente: em Trinidad e Tobago, o coro dos 32 líderes da América Latina e Caribe pelo fim da quarentena imposta à ilha dará medida do sucesso do bloco formado em novembro último na Cúpula do Sauipe (BA).

A movimentação das últimas semanas, a costura da declaração final e os acertos mais sutis de bastidores — tudo indica que soou o sinal e a cortina vai subir para o novo ato neste drama que se desenrola há 50 anos. O enredo se desenvolvia desde a campanha pela Casa Branca, quando Barack Obama inseriu “diplomacia” e “diálogo” na trama. A América Latina não deixou passar a “deixa” e decidiu chamar Cuba para o palco.

Obama e Lula, que se encantaram e encantaram o público em duas aparições, voltam a contracenar, agora com elenco completo. Ou quase: Raúl, terceiro vértice do triângulo, estará “na boca de todos”, como disse em visita a Brasília o premiê anfitrião, Patrick Manning.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.